Um prompt não fica melhor por ficar maior. Dá para escrever quatro parágrafos, colar o documento inteiro e ainda deixar sem resposta a pergunta que decide o resultado: o que você quer receber de volta, e para quê.
O pedido que dá errado quase nunca é curto demais. Ele é indefinido. E o que fica indefinido no pedido, a IA define sozinha — porque ela sempre entrega alguma coisa. Ela não devolve "faltou informação": devolve um texto plausível, construído em cima do palpite dela sobre o que você queria.
O prompt que parece completo
Segunda de manhã, reunião interna do escritório, quarenta minutos de gravação. Você joga a transcrição na ferramenta e escreve: "analise essa reunião".
Volta um resumo narrativo. Bem escrito, organizado em parágrafos, fiel ao que foi dito. E inútil para o que você precisava fazer com ele, que era distribuir tarefa antes do almoço.
Não foi a IA que errou. Foram cinco decisões que ninguém tomou no pedido — e que ela tomou no seu lugar. Este texto é de fundamentos: serve para quem já usa ChatGPT, Claude ou Gemini na rotina e quer parar de brigar com a resposta. O exemplo é o mesmo do começo ao fim, para você ver o pedido sendo montado peça por peça.
01 · Objetivo: a entrega, e para que ela serve
Objetivo não é o assunto. É a entrega, mais o uso que você vai dar a ela.
"Analise a reunião de hoje" nomeia o assunto e para por aí. Compare com o pedido inteiro:
Liste as pendências da reunião para eu distribuir as tarefas da equipe.
Repare no "para eu distribuir". Ele parece supérfluo e é a parte que mais trabalha. Uma lista que vai ser distribuída precisa vir item a item, cada um com dono possível, na linguagem de quem vai executar. O mesmo conteúdo, se o uso fosse outro — registrar em ata, prestar contas ao sócio, montar o relatório do mês —, sairia com outro recorte e outra ordem.
Quando você diz para que serve, a IA tem como decidir o que cortar. Quando não diz, ela mantém tudo, e manter tudo é a forma mais educada de não entregar nada.
Pergunta-chave Qual resultado eu quero?
02 · Contexto: de onde a IA está partindo
Contexto é o material mais a situação. Os dois, não só o anexo.
Use a transcrição anexada. É uma reunião interna do escritório sobre as tarefas da semana.
A frase é curta e resolve um problema silencioso. Sem ela, a IA não sabe se aquilo é uma reunião com cliente, uma audiência, uma call comercial ou uma conversa entre sócios. E a leitura muda tudo: nomes soltos viram clientes, uma frase de desabafo vira demanda, o escritório vira parte de um caso.
Contexto também é o que você decide não colar. Transcrição de reunião interna costuma ser de baixo risco. Material de cliente é outra conversa: tire o que identifica antes de enviar, e saiba o que a ferramenta que você usa faz com o conteúdo que recebe. O contexto que você dá deve ser o suficiente para a tarefa, não tudo o que existe na pasta.
Pergunta-chave O que a IA precisa saber?
03 · Instruções: o que fazer com o material
Instrução é verbo que a máquina consegue executar. "Analisar" não é.
Identifique decisões, tarefas, responsáveis e prazos mencionados.
Quatro alvos nomeados. A diferença entre "analise" e "identifique decisões, tarefas, responsáveis e prazos" é a diferença entre pedir uma impressão e pedir um trabalho.
Verbos que funcionam, porque descrevem uma operação: identifique, liste, separe, classifique, compare, ordene, transcreva o trecho que sustenta cada item. Verbos que não funcionam, porque descrevem um estado de espírito: analise, avalie, veja, considere, dê uma olhada.
E repare que a instrução recorta. Uma hora de gravação tem opinião, piada e discussão que morreu no meio. Ao nomear quatro coisas, você deixa o resto de fora de propósito. O que você não nomeia, entra junto.
Pergunta-chave Quais ações ela deve executar?
04 · Formato: a estrutura da entrega
Peça a resposta na forma em que você vai usá-la. Não na forma que a IA escolher.
Abra com as decisões. Depois, crie uma tabela com tarefa, responsável e prazo.
Duas coisas foram definidas aqui: a ordem (decisão primeiro, porque é o que o sócio quer ler) e a estrutura do resto. O nome das colunas não é detalhe — é o que você vai colar na planilha ou no sistema.
| Tarefa | Responsável | Prazo |
|---|---|---|
| Levantar os documentos do caso novo | Marina | quarta-feira |
| Revisar a minuta da contestação | não informado | não informado |
Se a lista vai para o grupo do WhatsApp, o formato é outro: itens curtos, um por linha, sem tabela. Se vai para uma ata, é outro ainda. Definir o formato antes de enviar economiza a rodada de "agora organiza isso numa tabela", que é a rodada que todo mundo faz.
Pergunta-chave Como quero receber?
05 · Limites: a fonte, e o que não presumir
É o requisito que quase ninguém escreve, e o único que separa uma resposta útil de uma resposta perigosa.
Use apenas a transcrição. Se não houver responsável ou prazo, escreva "não informado".
Duas travas em uma frase. A primeira fecha a fonte: vale o que está no arquivo, não o que o modelo sabe do mundo. A segunda diz o que fazer com a lacuna.
Sem essa segunda trava, o modelo preenche o buraco — e preenche bem, com o responsável mais provável e um prazo razoável. O prazo inventado tem exatamente a mesma cara do prazo real. Ninguém conferindo a lista no dia seguinte consegue distinguir os dois.
Com ela, a lacuna vira informação. A lista do que ficou sem dono e sem data costuma ser a parte mais útil da reunião, porque é o que vai voltar a atrasar na semana seguinte.
Pergunta-chave O que ela não deve presumir?
O prompt montado
Junte as cinco partes, cada uma com o seu rótulo. O rótulo não é enfeite: ele separa o que é ordem do que é material, e evita que a IA leia a sua instrução como parte do texto a analisar.
O pedido completo
OBJETIVO Liste as pendências da reunião para eu distribuir as tarefas da equipe. CONTEXTO Use a transcrição anexada da reunião interna do escritório sobre tarefas da semana. INSTRUÇÕES Identifique decisões, tarefas, responsáveis e prazos mencionados. FORMATO Abra com as decisões. Depois, crie uma tabela com tarefa, responsável e prazo. LIMITES Use apenas a transcrição. Se faltar responsável ou prazo, escreva "não informado".
Menos de cem palavras. Sem "atue como especialista", sem "você é um assistente jurídico altamente qualificado", sem promessa de recompensa. Cinco blocos que respondem cinco perguntas.
Troque a transcrição por uma petição inicial, e o mesmo esqueleto continua de pé: objetivo (levantar os fatos a impugnar, para eu montar a contestação), contexto (a inicial anexada, ação de cobrança, cliente é o réu), instruções (identifique cada fato narrado e a prova indicada), formato (tabela com fato, prova e página), limites (use apenas a inicial; onde não houver prova indicada, escreva "sem prova indicada").
As cinco perguntas antes de enviar
O prompt pronto é o que sobra depois de responder cinco perguntas. Antes de apertar enviar, releia o seu pedido procurando por elas:
- Qual resultado eu quero? A entrega e o uso, não o assunto.
- O que a IA precisa saber? O material e a situação.
- Quais ações ela deve executar? Verbos que descrevem uma operação.
- Como quero receber? A estrutura em que a resposta vai ser usada.
- O que ela não deve presumir? A fonte fechada e o destino da lacuna.
A conferência leva trinta segundos. O retrabalho que ela evita leva bem mais.
O que ficou de fora, e por quê
Ficaram de fora duas coisas que aparecem em quase todo guia de prompt: o papel ("atue como advogado especialista em direito imobiliário") e o tom.
Elas funcionam, e eu uso. Só não resolvem o problema deste texto. Papel e tom mudam o registro da resposta; os cinco requisitos mudam o que a resposta é. Um pedido com papel impecável e objetivo indefinido devolve o texto errado em ótimo português.
Existem outros recortes possíveis. O mapa que publiquei no começo de setembro usa sete campos — papel, contexto, missão, entrega, perguntas, tom e limite. Não é contradição: é o mesmo pedido fatiado de outro jeito. A divisão em cinco é uma organização editorial minha, não um padrão oficial de fabricante nem garantia de resultado.
E o nível de detalhe depende da tarefa. "Qual o prazo do agravo de instrumento?" não precisa de cinco blocos. A estrutura ganha valor quando a entrega vai ser usada por outra pessoa, repetida na semana seguinte, ou colada dentro de um documento seu.
O que o prompt não resolve
Um pedido bem feito orienta a resposta. Ele não confere a resposta.
Continua com você olhar se o nome está certo, se o prazo bate com o que foi dito, se a tarefa atribuída à Marina é mesmo da Marina. Em material jurídico, a régua é mais dura ainda: número de processo, data, citação e fonte se conferem um por um, sempre. Nenhuma estrutura de prompt substitui essa leitura.
E há um limite de outra natureza. O prompt serve para a próxima tarefa. Quando o mesmo pedido volta toda segunda-feira, e cada pessoa do escritório o escreve de um jeito, o que falta não é um prompt melhor: é o método registrado em algum lugar, para a IA consultar toda vez. Escrevi sobre essa diferença em Prompt, skill e agente.
Comece pelo pedido. Ele é o degrau que custa trinta segundos e resolve a maior parte das respostas ruins — desde que você continue conferindo o que volta.